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A chegada de Paulo Sousa e sua comissão técnica completa, culminou em diversas reformulações internas no Flamengo. Rafael Winicki, preparador físico da equipe em 2021, pediu demissão no fim da temporada passada e, segundo ele, não havia sentido continuar no Clube.

O preparador físico revelou, em entrevista exclusiva ao Urubu Interativo, que não tinha autonomia para implementar seus trabalhos e metodologias e, mesmo assim, por muitas vezes, foi dado como culpado por conta das diversas lesões da equipe. Algo que não mudou (e até aumentou) com a atual comissão técnica.

Rafael Winick revela: ”Muitas vezes fui dado como culpado, sendo que não eu não tinha a mínima autonomia para implementar o que eu acredito” – Foto: Flamengo

1 – Quando você saiu, em uma das suas entrevistas, você elogiou muito o Dr. Tannure. Hoje,tanto o Tannure, como todo o departamento médico, estão sendo muito criticados. Qual é a sua percepção sobre isso?

Fiz muitos elogios e continuo fazendo ao Doutor Tannure. Tem todo meu respeito e admiração. É um cara que está sempre um passo à  frente, querendo trazer o que há de mais moderno e atual na medicina esportiva, querendo levar isso para o Clube. Não dá para tudo cair na conta dele, mas acaba acontecendo.

No Flamengo a repercussão é muito maior e qualquer “pingo d’água” acaba virando uma tempestade. Como ele ocupa um cargo de chefe, muita coisa cai na conta dele, mesmo coisas que ele não controla. São diversas situações que fogem do controle dele, mas acaba caindo na conta de alguém. Porque alguém precisa pagar por isso.

2 – Na temporada 2021, a preparação física do Flamengo foi muito criticada por conta da frequência alta de lesões. No entanto, em 2022, mesmo com uma comissão reformulada,  as lesões continuaram em um nível alto. Em seu ponto de vista, qual é o maior motivo (culpa) disso?

Realmente na temporada de 2021 houveram muitas críticas, muitas vezes fui dado como culpado, sendo que eu não tinha a mínima autonomia para implementar o que eu acredito e gostaria muito de ter feito. Inclusive, esse foi um dos motivos para eu pedir para sair. Estar em um lugar onde eu entrei para poder aplicar o meu trabalho e minha metodologia, onde eu colhi e continuo colhendo ótimos frutos desse meu modo de trabalhar. E, lá dentro eu não conseguia fazer isso, não fazia sentido eu continuar.

Mesmo assim fui citado como culpado. E você pode ver que parecem ser coisas bem pessoais, hoje com o número de lesões são até maiores que a do ano passado e ninguém fala de preparação física, agora falam de departamento médico. Parece que há um movimento de manipulação para achar um ‘culpado’ e ano passado, muitas vezes caiu na minha conta sem eu ter a menor autonomia. É complicado, não é querendo tirar a culpa, mas o calendário brasileiro desgasta bastante, no entanto, agora o ‘vilão’ virou o departamento médico. Mas, além disso, existe uma triste e infeliz coincidência: a maioria dessas lesões são por traumas, coisas que não tem como serem evitadas, não são erros ou desgastes de alguém, é um incidente.

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3 – A diretoria dava autonomia para vocês barrarem algum atleta de atuar na partida seguinte? Ou em implementar novos métodos e filosofias no trabalho?

Até onde eu sei a diretoria não interferia nisso. Era uma decisão tomada entre diversos setores. O Tannure como chefe do DM, acabava tendo um peso maior nessa decisão final e, por muitas vezes, sob pressão.

Aí já não sei até que ponto a diretoria pressionava nessa decisão, no sentido que o atleta X ou Y de repente ainda não estava em perfeitas condições de jogar, mas era uma partida importante e mesmo assim, se assumia o risco de por esse atleta em jogo, às vezes acontecia desse atleta de se machucar, mas foi a opção de assumir o risco. Mas a diretoria não dava essa palavra final, no máximo ‘pressionava’ pela importância do jogo. Mas era muito avaliado entre diversos setores: DM, fisioterapia, fisiologia etc.

4 – Uma das entrevistas do Renato Gaúcho, no fim da última temporada, que expôs o DM em geral, foi quando o Renato falou: “Tivemos muitos problemas com jogadores no departamento médico. Jogadores que saem do departamento médico e não voltam 100%.’’, como isso foi conversado entre vocês e qual é a sua opinião sobre essa declaração, sobre os jogadores não voltarem 100%?

Em relação a declaração do Renato eu prefiro não comentar, mas todas as decisões eram tomadas de forma conjunta. Todos os dias haviam reuniões de todos os setores para debater cada caso de forma individual, levando todas as questões e condições do atleta para estar presente em determinado jogo. Então era uma decisão conjunto e não unilateral. Por vezes, chegava-se em um consenso que valia a pena ter aquele atleta para um jogo importante e como falei, muitas vezes não era a melhor condição do atleta. No entanto, devido a importância da partida o atleta ia para o jogo assumindo o risco.

5 – Teve algum atleta que vocês da preparação física viram e avisaram que não iria ter condições de jogo e mesmo assim foi ‘forçado’ a jogar?

A tomada de decisão era pautada em muitos aspectos e muito debatida. Por exemplo: O atleta é muito importante e o jogo também, mas o reserva do jogador ‘X’ tá em boas condições para jogar no lugar dele? Vale a pena o risco?

Era conversado e decidido por todos os setores até chegar nessa definição final. Por vezes deu certo, a imprensa não sabia porque não era noticiado, mas só percebia e era pautado, quando não dava certo. Era uma decisão conjunta.

SRN

Twitter: @pabloraphaelrua

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